Este caminho

Percorro esta estrada vazia, contemplando fugazmente a natureza que me rodeia. A esta velocidade, não consigo concentrar-me na sua beleza tão singular. As minhas emoções envolvem-me de tal forma que não me consigo concentrar, pois todas as minhas energias se esgotaram, consumidas por esta mágoa que não consigo descrever. O tempo passa, as árvores também, o tempo continua para elas e para mim. Acelero. Sinto o carro ganhar força a meu comando. Uma lágrima desce-me pela face, mas ela não vem só. Inspiro, para tentar conter o que é inevitável. A força do que aí vem é maior do que aquela que eu consigo aguentar. As lágrimas rebentam-me dos olhos, e tudo fica turvo, mas nem por isso deixo de acelerar. A dor aperta tanto o meu coração que, por instantes, não consigo respirar. Quero afastar esta angústia. Quero não sentir todo este aperto que tanto me magoa e que não consigo controlar. Mas a dor é insistente, não dá tréguas, qual rainha do sofrimento, e eu sou apanhada desprevenida na sua teia. Vou a 140 km/h. O sol está a pôr-se algures, vejo as cores do crepúsculo invadirem o céu através dos meus olhos turvos. Os soluços rebentam-me do peito, uma força própria, a sua intensidade sem limites, as energias gastas que, na sua reserva, oferecem o seu último litro. Agora, nada importa, apenas a estrada, este caminho desconhecido que se tornou o meu refúgio. Ninguém me acompanha neste percurso. Vou só. A velocidade aumenta, e consigo a minha vontade de fugir de tudo o que me perturba. O carro evidencia a sua potência, o motor mais ansioso e ruidoso. Sinto que, neste momento, fugir é a melhor solução neste auge de tristeza. O choro intensifica-se, mas tenho de prestar atenção. Está a escurecer, e, só, vagueio no vazio. Só queria nunca voltar.

Elisabete Martins de Oliveira

25.08.2018

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Saber Exprimir Amor por Palavras

Por vezes, é tão difícil exprimir-nos por palavras… parece que o que nos está na mente não consegue perfazer a linha do discurso, quem sabe, por orgulho, por vergonha, por receio. Por vezes, não é fácil dizermos o que realmente sentimos.

Eu aprendi, da pior maneira, que não devo esconder o que sinto, que não devo deixar de dizer a alguém o quão fantástica é, os quantos super-poderes que usa no seu dia-a-dia, o quanto a admiro, o quanto a adoro. Porque, por vezes, nunca chegamos a dizer isso à pessoa que mais admiramos e, quando nos lembramos que o devíamos ter feito, já é tarde demais. A vida, por muito que a tomemos por garantida, tanto pode ser longa como curta. É por esse motivo que nunca nos devemos esquecer de dizer às pessoas o quanto as admiramos, o quanto gostamos delas. Nunca sabemos, afinal, quando será o seu último dia.

Da pior maneira, como disse, aprendi que o tempo é relativo, que as pessoas partem quando menos esperamos, que por vezes é tarde demais para lhes dizermos o quanto as amamos, que são super-heróis ou super-heroínas para nós, que nos ensinaram a compreender melhor o mundo.

Pode não ser fácil exprimir-nos por palavras, mas devemos aprender a fazê-lo. Por muito que, por gestos, demonstremos o quanto adoramos as pessoas, as palavras têm sempre um grande impacto. Por esse motivo, expressa o quanto amas ou admiras as pessoas que mais significado têm para ti!

 

Elisabete Martins de Oliveira

26.07.2018

Descobrir-nos a Nós e ao Outro

Cada pessoa é única em todo o seu ser. Ninguém existe no mundo que possa igualar a nossa unicidade, cada nossa peculiaridade. Existem, sim, semelhanças, talvez, de personalidades, de interesses, de perspectivas.

Mas nós somos sempre nós.

E isso é o que temos de único, que não devemos ocultar. Se todos assim o fizéssemos, descobriríamos muito mais do que a mera superficialidade do outro. Porque, na verdade, aquilo que desconhecemos dos outros é o que de mais único têm, mesmo que a nós nos pareça estranho e até invulgar. Mas esse é o seu verdadeiro Eu.

Quantos de nós não gostaríamos de por vezes entrar na mente dos outros, de saber o que pensam, o que sentem, o que esperam do mundo? Quanto de nós seria partilhado se realmente nos déssemos a conhecer um pouco mais?

Naturalmente, nem sempre iríamos apreciar algumas características do outro, mas questionemo-nos: quem, do nosso conhecimento, é perfeito?

Existe dentro de nós uma profundidade única, experiências que nos tornaram quem somos hoje. Se partilharmos algumas destas experiências, quem sabe se não encontraremos um espelho diante de nós, experiências semelhantes pelas quais o outro também passou?

Porque é nesta partilha de vivências que conhecemos, afinal, quem nós somos, e quem o outro é, perfazendo o caminho da descoberta e partilha da nossa verdadeira identidade.

Elisabete Martins de Oliveira

25.07.2018

Quando a Noite Cai

Quando a noite cai,

o silêncio inunda o meu interior

desfaz qualquer dúvida

e o medo, altivo, surge.

 

E de repente tudo muda.

A alegria, antes sentida,

perde-se no rumo da incerteza,

despedaçando qualquer esperança.

 

O palpitar do meu coração acelera,

rebenta-me no peito, descontrolado,

e a pressão na minha mente

deixa-me a sufocar lentamente.

 

Sofrimento, quem me dera travar-te,

amarrar-te algures no vazio,

deixar-te lá sem nunca mais te encontrar,

embora dali te quisesses libertar.

 

Que posso eu fazer,

se a minha pequenez

neste mundo caótico

apenas me retrai?

 

Resta-me combater-te

com todas as armas que tenho,

pois quero-te longe, ó sofrimento,

longe da minha mente.

 

Quero apenas a paz

quando a noite surge,

Quero apenas a tranquilidade

quando a angústia urge.

 

 

Elisabete Martins de Oliveira

05.06.2018

Transformando o meu mundo

Há algo no teu olhar que,

despedaçado em partículas,

me move na tua direcção.

 

Encandeias-me com a tua magia

e com a dor que carregas,

tão, tão longe da perfeição.

 

Crenças que tens e que tiveste

desvanecem-se na troca de olhares,

restando apenas a simplicidade.

 

Mas nada em ti é simples,

porque te revestes em amor,

ultrapassando a mera normalidade.

 

E por isso aqui estás,

partilhando o teu ser,

transformando o meu mundo.

 

Elisabete Martins de Oliveira

23.05.2018

Resistência à fraqueza!

 

Esta tristeza que me assiste,

esta fraqueza que persiste,

são lágrimas pendentes,

são como tempestades irreverentes.

 

São verdadeiras predadoras,

aguardando a sua frágil presa.

São eternas sonhadoras

que aspiram à realeza.

 

Assim dominam as mentes,

refugiando-se no recôndito ser,

alastrando-se como nascentes,

vingando o caminho a percorrer.

 

Mas esta tristeza e esta fraqueza

que contra mim se uniram

encontrarão antes a certeza

de que de mim não se apoderam.

 

Elisabete Martins de Oliveira

18.05.2018

Inspiração e Escrita

Para mim, a inspiração é uma sensação simultaneamente física e mental de calma, relaxamento e um batimento cardíaco mais lento que reveste o coração com o esplendor da criação. É mágico. É nestes momentos, em que este conjunto de sensações me invade, que subitamente a minha mente se enche de vontade de escrever. A inspiração não me podia deixar mais feliz. No entanto, ela nem sempre se encontra lá, anda desaparecida, vagueando, quem sabe, na mente de outras pessoas que também chamam por ela.

E esta deve ser, talvez, a maior lição para um escritor: é que a inspiração nem sempre nos visita. Existem mil e uma razões para tal, e uma delas é que as nossas experiências, e o recheio emocional que trazem consigo, nem sempre nos permitem deixar espaço para tal motivação. E isto acontece, por vezes mais vezes do que desejamos. O que eu aprendi, todavia, é que Escrita encontra-se dentro do escritor independentemente de a inspiração invadir o seu âmago. Por vezes, basta reservarmos um tempo para nós, sentarmo-nos e deixarmos que a nossa mente, as nossas ideias, as palavras, fluam na sua natural liberdade na folha em branco. Este momento é tão aprazível quanto a bem-vinda visita da inspiração. Tal significa que, com ou sem inspiração, o escritor é um guerreiro na arte da palavra que consegue o feito fantástico da fascinante criação literária.

 

Elisabete Martins de Oliveira

04.05.2018